Este blog, criado em janeiro de 2007, é dedicado à minha filha Flavia e sua luta pela vida. Flavia vive em coma vigil desde que, em 06 de janeiro de 1998, aos 10 anos de idade, teve seus cabelos sugados pelo sistema de sucção da piscina do prédio onde morávamos em Moema - São Paulo. O objetivo deste blog é alertar para o perigo existente nos ralos de piscinas e ser um meio de luta constante e incansável por uma Lei Federal a fim de tornar mais seguras as piscinas do Brasil. A Lei Federal, finalmente foi aprovada em 2022. Flavia faleceu em março de 2026, depois de ter vivido 28 anos em coma. Vou continuar escrevendo neste blog, Em memória de Flavia.
Mostrando postagens com marcador Home Care. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Home Care. Mostrar todas as postagens

E A VIDA CONTINUA. SIM, MAS COMO.....?

- 4 de agosto de 2007
Durante o ano seguinte ao acidente com Flavia, ou seja 1999, eu e meu filho Fernando tentávamos assimilar essa nova rotina, essa nova forma de viver, tão diferente daquela que tínhamos antes, quando todos saudáveis, riamos a toa, e mesmo sendo uma família pequena, éramos felizes.

O acidente com Flavia mudou tudo. Apesar do Home Care possibilitar sua permanência em casa, numa espécie de mini UTI, perdemos a privacidade. Tínhamos sempre alguém estranho dentro de nossa casa, num entra e sai constante de pessoas que claro, faziam o trabalho delas: Visitavam, cuidavam, supervisionavam..... Era bom ter Flavia em casa, era ruim abrir a porta todas as manhãs e receber com freqüência, uma pessoa diferente daquela que havia estado em nossa casa no dia anterior, uma pessoa estranha, que passaria o dia todo ao lado de Flavia, sem ter tido oportunidade de criar com ela ou comigo e Fernando, qualquer vínculo de amizade e carinho.

Fernando, então com 14 anos, era uma preocupação para mim. Ele, que no dia do acidente retirou a irmã da água, puxando-a pelos cabelos presos ao ralo da piscina, enclausurou-se em si mesmo. Quando não estava na escola, ficava em seu quarto, com a porta sempre fechada. Depois de algum tempo consegui estabelecer com ele um código de afeto: Descalços ambos, eu o fazia subir em meus pés e caminhávamos assim pela casa, cambaleando e rindo, num esforço mútuo de equilíbrio físico. E dessa forma tão infantil, eu e Fernando brincamos por um bom tempo. Mas a dor continuava ali. Presente e diária.

Sabemos, quase todos sabemos, que não se deve alimentar tristeza e dor, mas quando grandes perdas nos atingem, não há como evitar, sucumbimos, pelo menos por um bom período, sucumbimos. Precisaremos de algum tempo para digerir, para assimilar essa experiência de dor intensa e imensa. Não há meios de apressar essa passagem dolorosa, há que deixarmos que a dor fique e permaneça enquanto tiver que ficar, enquanto não nos for possível expulsá-la de nossos gestos, de nossos rostos, de nossa voz, nossas entranhas, até que, não de repente, mas pouco a pouco, possamos dizer para nós mesmos, repetidas e repetidas vezes que a vida continua. Da forma que for...

ROTINA DOLOROSA

- 20 de julho de 2007
No post deste blog do dia 08 de Maio, “Voltando Para Casa”, eu relatei como foi a saída de Flavia do Hospital, após oito meses de hospitalização. E disse que ela, mesmo continuando em coma, passaria a ser cuidada em casa pelo sistema Home Care. Fiquei sabendo pelos meus amigos Carlos Rocha e Isabel Filipe de Portugal que lá, os planos de saúde não cobrem Home Care. É interessante esse intercâmbio de informações que nos permite conhecer melhor a cultura e o modo de vida das pessoas nos diferentes países. Em todos, há coisas boas e más. O que for bom faz todo o sentido aplaudirmos, mas cabe a nós como cidadãos, reclamar, protestar e denunciar o que julgamos errado, cabe a nós, cobrar de nossos governantes que cumpram as promessas que fazem – todos, sem exceção - ao se candidatarem a qualquer cargo público. Afinal, eles nos devem o cumprimento dessas promessas porque se estão no poder, fomos nós que os colocamos lá.

Mas voltando ao Home Care de Flavia.

Setembro de 1998.

Flavia estava instalada em casa e pouco a pouco tentávamos resgatar nossa rotina de vida, pelo menos naquilo que fosse possível, mas não demorou muito para percebermos que nada mais seria como antes. Na época, eu trabalhava na empresa Hewlett Packard, e foi graças à HP que me proporcionava um convênio médico com cobertura para Home Care que foi possível manter minha filha em casa. Mesmo assim a situação era muito dolorosa. O quarto de Flavia se transformou numa pequena UTI e teríamos, eu e Fernando, que nos acostumar com a presença de pessoas estranhas dentro de nossa casa, 24 horas. Fernando, então com 14 anos, quando não estava na escola, ficava a maior parte do tempo em seu quarto, e com a porta fechada, saindo apenas para fazer as refeições.

No trabalho, eu tentava me concentrar em minhas tarefas, nem sempre conseguindo. Nessa época a compreensão e sensibilidade do Diretor de Recursos Humanos, Alberto Golbert, com quem eu trabalhava, foi muito importante. Golbert, um ser humano sensível e doce, não se incomodava, ou pelo menos não demonstrava sentir-se incomodado, pelas várias interrupções que meu trabalho sofria, quando a curtos intervalos, um colega de trabalho aparecia para conversar comigo, perguntar sobre o estado de Flavia e demonstrar solidariedade. E assim, com minha performance profissional afetada, ao fim do dia, eu voltava para casa, me sentindo aliviada por não ter que atravessar a cidade para ver Flavia no Hospital. Então, eu não precisava mais me dividir entre meus filhos, ambos estavam ali, ao alcance de alguns passos, e de meus abraços.

Ao relatar estes fatos, quero mostrar como a vida das pessoas pode mudar dolorosamente de uma hora para outra, por causa de um acidente como o que aconteceu com minha filha, e como tantos outros que acontecem todos os dias no Brasil e no mundo. Exemplo disso, é o acidente que acaba de acontecer com a criança Abigail Taylor, nos Estados Unidos, mencionado no post anterior deste blog, e causado pelo mesmo motivo – um ralo de piscina instalado e funcionando de forma irregular. Sei que para Abigail e sua família, uma nova e dolorosa rotina se instalou em suas vidas. O que defendo aqui é que se não houve fatalidade e sim negligência na ocorrência de um acidente, os responsáveis devem ser severamente punidos. Enquanto isso não acontecer, cabe a nós não deixar que o assunto caia no esquecimento.

VOLTANDO PARA CASA!!

- 8 de maio de 2007

A foto que ilustra este post foi extraida do blog Art&Design, de Isabel Filipe.

Isabel, coloquei tua arte neste post, para simbolicamente representar as flores que enfeitaram o quarto de Flavia no dia em que ela voltou para casa, após longos oito meses no hospital.

24 de Agosto de 1998. Finalmente Flavia sai do hospital. Dr.Fernando deixou claro que ela só poderia ir para casa se fosse cuidada pelo sistema Home Care.(*) com toda a estrutura que o estado dela exigia: Enfermagem 24 horas, Equipe médica multidisciplinar, Fisioterapia, Fonoaudiologia e entre outras coisas, era preciso ter no quarto dela cama hospitalar, inalador, cilindros de oxigênio, oxímetro, cadeira especial para o banho, suporte para soro e dieta enteral, etc.

A certeza de ter Flavia novamente em casa depois de tanto tempo, me fez sentir de certa forma aliviada. Sentia-me também um pouco nervosa, com um misto de medo e alegria, ansiedade e euforia. Meu Deus, e se eu não conseguisse cuidar dela mesmo com todo esse aparato dentro de nossa casa? Procurei  me acalmar.

(*) Home Care: Significa Cuidados em Casa ou Internação Domiciliar – O paciente recebe em sua residência, serviços médicos e de enfermagem. Dependendo da gravidade do caso, o paciente pode ser atendido por equipe multidisciplinar 24h. (Foi o caso de Flavia) É uma alternativa à internação hospitalar, com a vantagem de que em casa, o risco de se contrair infecções é muito menor, uma vez que se está fora do ambiente hospitalar. Além disso, a proximidade com a família e o ambiente doméstico reduzem o estresse emocional.

A assistência médica pelo sistema Home Care tem um custo bastante alto, mas ainda inferior ao custo de uma longa permanência no hospital, e talvez por isso o Home Care tem cobertura por muitos planos de saúde no Brasil. Não fosse isso, dificilmente alguém teria condições financeiras de pagar por esse serviço.
Related Posts with Thumbnails