Este blog, criado em janeiro de 2007, é dedicado à minha filha Flavia e sua luta pela vida. Flavia vive em coma vigil desde que, em 06 de janeiro de 1998, aos 10 anos de idade, teve seus cabelos sugados pelo sistema de sucção da piscina do prédio onde morávamos em Moema - São Paulo. O objetivo deste blog é alertar para o perigo existente nos ralos de piscinas e ser um meio de luta constante e incansável por uma Lei Federal a fim de tornar mais seguras as piscinas do Brasil. A Lei Federal, finalmente foi aprovada em 2022. Flavia faleceu em março de 2026, depois de ter vivido 28 anos em coma. Vou continuar escrevendo neste blog, Em memória de Flavia.
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14 anos convivendo com o silêncio de Flavia

- 6 de janeiro de 2012
Flavia aos 8 anos numa apresentação de teclado no Consa, colégio onde ela estudava em Moema - SP 

Todos os anos no dia 06 de janeiro a vida me pesa mais.

E isto desde que há 14 anos convivo diariamente com o estado de coma vigil de minha filha e com todas as limitações e sofrimento decorrentes desta tragédia ocorrida em 06 de janeiro de 1998, num acidente que poderia ter sido evitado. Há 14 anos, não ouço a voz de Flavia, não a vejo tocar seu teclado, não a vejo sorrir nem exibir seu sorriso luminoso e gaiato de criança alegre e saudável que era.

Mas que não pensem  aqueles  que com sua negligência causaram o acidente que deixou minha filha em coma que o desgaste físico e emocional a mim causados por esses longos anos de sofrimento, me fará esmorecer. O tempo, a dor e o cansaço não me farão abandonar esta luta para fazer valer os direitos de Flavia, para lhe dar voz, e desta forma lhe possibilitar o exercício de sua cidadania e de sua dignidade.

E para que outras crianças não venham a ter o destino de Flavia e outras mães o meu destino, transformei  minha dor em luta e venho denunciando  a negligência com a segurança nas piscinas do Brasil, negligência esta que, conforme venho documentando neste blog, além de causar o acidente que modificou dolorosamente a vida de minha filha continua a causar tragédias em nosso país levando crianças a deixar seus sonhos no fundo de uma piscina, em mergulhos sem volta.

A indignação tem me feito  também  usar este espaço para protestar  contra a lentidão da justiça brasileira que pela morosidade e burocracia com que julga os processos, beneficia negligentes e criminosos e desampara o cidadão de bem, enquanto - em meio à dor da perda – travamos uma batalha espartana para fazer valer os direitos de nossos filhos que tiveram a infância e/ou a juventude roubada.

Há 14 anos, no dia 06 de janeiro a vida me pesa mais. Pelas recordações, pelas ausências, pelos silêncios, pelos temores, pelos cansaços. Há 14 anos no dia 06 de janeiro a vida me pesa mais. Pelos crimes sem castigo, pelos descasos, pelas negligências, pelas impunidades, pelas injustiças.

Michele, para sempre uma amiga de Flavia

- 1 de maio de 2010
Embaixo da cama de Flavia, está Michele, nossa poodle.

Logo depois do acidente ocorrido com Flavia, olhando em sua mochila escolar, vi dentro de um de seus cadernos, o bilhete de uma amiguinha de classe, que me encantou. Dizia assim o bilhete:

“Flavia, você é muito legal. Aqui no CONSA (Colégio onde Flavia e a amiguinha estudavam) você é minha melhor amiga. E quero pedir para você ser minha melhor amiga fora da escola também. Eu adoro você Flavia e quero ser sua amiga para sempre.
Assinado: Michele.”

A vida se encarregou de separar as amiguinhas Michele e Flavia, e eu nunca mais soube da criança que escreveu este doce bilhete. Mas em homenagem a ela e ao carinho que um dia sentiu por Flavia, coloquei seu nome na cachorrinha poodle que comprei, quatro anos após o acidente, com a louca esperança de que seus latidos acordassem Flavia. Os latidos da cachorrinha não despertaram Flavia, mas Michele, que é doce e carinhosa, nos conquistou para sempre. E o nome de Michele, pelo menos na minha lembrança, eterniza a amizade de duas crianças: Michele e Flavia.

Quando Flavia está na sala, em sua cadeira de rodas, Michele fica por perto e por vezes, eu a coloco no colo de Flavia para que as duas troquem afetos. Silenciosamente e sem gestos, sei que as duas se acariciam. Quando Flavia é trazida de volta para seu quarto, Michele vem também, se acomoda embaixo da cama de Flavia e ali fica por horas, até que o sono também lhe chega e ela vai para sua própria cama na área que lhe é reservada para dormir. No dia seguinte, Michele acorda e sapeca, corre alegre e saltitante pela casa. Enquanto Flavia, segue dormindo este seu sono sem fim.

COM AFETO DÓI MENOS.

- 10 de abril de 2007
Irmã Priscila, diretora do CONSA, colégio onde Flavia estudava, nos visitava um dia no hospital, quando entrou a Fisioterapeuta que atenderia Flavia. Alba, era o nome daquela moça. Tinha a pela branca feito papel, e com voz estridente, dirigiu-se à Flavia, como se ela pudesse compreendê-la:

- Flaviaaaa!!! – Vamos relaxaaaar!!

Percebi a falta de delicadeza da fisioterapeuta e me angustiei.

Diariamente e mais de uma vez, faziam em Flavia, fisioterapia motora e respiratória, esta, dependendo do profissional, me parecia uma verdadeira tortura. Uma sonda de aspiração traqueal, era conectada a um equipamento de sucção a vácuo, preso à parede, próximo à cama de Flavia. Quando a fisioterapeuta abria o tal vácuo, um barulho imitando um chiado forte se fazia ouvir. Aí, ela introduzia a sonda no nariz de Flavia, e aspirava as secreções que ela estava impossibilitada de eliminar por vias normais. Via-se então em seu rostinho, uma expressão de sofrimento, e todo seu corpo estremecia, numa cena absolutamente triste de se ver. Irmã Priscila, não se contendo, correu para o banheiro. Foi chorar. Eu, segurei a mão de Flavia e comecei a rezar.

Senti-me aliviada, quando a fisioterapeuta saiu e entrou Marlene, uma auxiliar de enfermagem muito competente, delicada e carinhosa com Flavia. Sempre que Marlene estava de plantão, cuidava de minha filha com extremo zelo, por isso, nas noites em que Flavia estava sob seus cuidados, eu me sentia mais tranqüila. Infelizmente, perdi o contato com Marlene, mas ela permanece em minha lembrança, como exemplo do que deve ser um profissional de saúde, seja médico, fisioterapeuta, auxiliar de enfermagem ou o que for: Há que existir nesse profissional, um misto de competência e afeto. O carinho dispensado a quem está em uma situação dolorosa, pode até não eliminar a sua dor, mas certamente, torna mais suportável o sofrimento.
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