Este blog, criado em janeiro de 2007, é dedicado à minha filha Flavia e sua luta pela vida. Flavia vive em coma vigil desde que, em 06 de janeiro de 1998, aos 10 anos de idade, teve seus cabelos sugados pelo sistema de sucção da piscina do prédio onde morávamos em Moema - São Paulo. O objetivo deste blog é alertar para o perigo existente nos ralos de piscinas e ser um meio de luta constante e incansável por uma Lei Federal a fim de tornar mais seguras as piscinas do Brasil. A Lei Federal, finalmente foi aprovada em 2022. Flavia faleceu em março de 2026, depois de ter vivido 28 anos em coma. Vou continuar escrevendo neste blog, Em memória de Flavia.
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Esperança, dor e amor.

- 20 de fevereiro de 2011
Meus filhos Fernando e Flavia, o laço de amor mais forte que tenho com a vida.

De vez em quando me pedem para eu falar de ESPERANÇA para outras pessoas que assim como eu, passaram ou passam pela dolorosa experiência da convivência diária com o estado de coma de alguém querido. Um filho, então, ah! como um filho é querido! Filho é um pedaço de nós. Filho é sem dúvida, o laço de afeto mais forte que temos com a vida. O que acontece de bom para nossos filhos, nos deixa exultantes de alegria. O que lhes acontece de mau, nos causa sofrimento intenso. Acredito que sem exceção, todos nós queremos ver nossos filhos saudáveis e felizes.

Sobre a esperança: Assim como a opção religiosa ou a crença de cada um de nós, a esperança é algo muito pessoal e há que se respeitar como cada pessoa lida com ela. E a esperança não é a mesma para uma pessoa que espera há dois, três, cinco anos, que para aquela que espera, há dez, treze, quinze anos ou mais. A esperança na recuperação de uma pessoa que sofreu um acidente, entre outras variáveis, depende muito da gravidade de cada caso. Essa esperança depende e é possível que se modifique com o passar dos anos, do longo tempo  que a pessoa espera.

Quando percebi que a esperança de ver Flavia recobrar a consciência se enfraquecia com o passar dos anos - e já se vão mais de treze anos - que tenho minha menina em coma vigil – saí em busca de algo que preenchesse o vazio que a esperança em crise ia deixando em mim. Saí em busca de algo que desse um sentido a esta dor tão intensa. Tão intensa que por vezes senti que poderia eu mesma me transformar em dor. E andaria eu por aí a mostrar de forma ostensiva esta dor estampada em meus olhos, em meu rosto, em meus gestos. Em minha voz. Esse risco existe quando nos deixamos anular pela dor, quando não reagimos, quando permitimos que a dor nos faça dela reféns.

Cada um de nós vai encontrar a sua maneira - ou várias - de lidar com a esperança e com a dor. Uma das maneiras que encontrei de lidar com ambas é escrever aqui no blog de Flavia. Minha maneira de lidar com a esperança e a dor foi também protestar contra a lentidão da justiça brasileira em condenar os responsáveis pelo acidente que deixou Flavia em coma vigil irreversível. É continuar alertando para o perigo dos ralos de piscinas. É documentar aqui no blog de Flavia, todo novo acidente causado por ralo de piscina, do qual eu venha a saber. É desejar e lutar por uma lei federal, ampla e eficaz que entre outros itens de segurança, regulamente a venda a instalação e a manutenção dos sistemas de sucção de piscinas, de forma a evitar novas tragédias causadas por esses ralos que tantos acidentes graves e fatais têm causado no Brasil, sem que afinal, os responsáveis sejam devidamente punidos.

Minha esperança é que possamos um dia ter um país mais justo, para nós e nossos filhos, com uma justiça mais célere que se preocupe mais em proteger as vítimas do que ser tolerantes com pessoas e empresas negligentes, com a violência e com o crime. Minha esperança é que meu grito de dor e indignação pelo acidente - causado por negligência - ocorrido com minha filha e com tantas outras crianças, que esse meu grito ecoe cada vez mais longe, e que conscientize cada vez mais pessoas sobre o perigo desses ralos de piscinas, vendidos, instalados e mantidos sem o devido cuidado, num inadmissível desrespeito à vida humana.

E sempre tenho esperança no amor. Principalmente no seu poder de minimizar a dor.

Boa semana a todos e até o próximo post.

Post Sonoro: A voz nos aproximando.

- 1 de abril de 2008
Este post sonoro é a entrevista feita comigo por meu amigo António do blog Peciscas, de Portugal e que ficou lá no blog dele de 28 a 31.03.2008. Para quem ainda não ouviu, deixo aqui a entrevista.

Para ouvir, clic na setinha do play, a primeira da esquerda.


Este recurso do post sonoro é muito interessante. Nós que nos conhecemos através da palavra escrita, temos agora a oportunidade de nos aproximar um pouco mais através do som de nossa voz. Agradeço ao António pela oportunidade e a vocês por me ouvirem.

Nota:  Os comentários, desde que respeitosos, são bem vindos e até um estímulo para mim que faço deste blog a minha mídia, a minha janela para o mundo, e que de alguma forma é a voz de Flavia.. Entre, diga seu nome e dê a sua opinião. Aproveitemos esta facilidade existente nos blogs - interagir uns com os outros, de forma gentil, solidária, amiga. E desta forma estaremos dignificando o uso da Internet. Muito obrigada.


Um abraço e até o próximo post.

Um Simples Chamado. DE ATENÇÃO!

- 30 de novembro de 2007
Eu e Flavia temos recebido muitas demonstrações de afeto e solidariedade. O poema abaixo é uma dessas demonstrações que me fez sentir emocionada, não só pela beleza e sensibilidade do texto, mas pela conscientização que se percebe nas palavras do autor, sobre o perigo dos RALOS DE PISCINAS, que instalados de forma inadequada e sem a devida manutenção, fizeram podem continuar a fazer vítimas por todo o mundo.

Devidamente autorizada por Ramon de Alencar do Blog VOCÀBULAH, transcrevo o poema que ele fez para Flavia. Por favor, alternem sua leitura com o post anterior.
"
Ramon de Alencar
has left a new comment:

' ...-Estejas a vontade Odele. As palavras são de todos, e em especial, aquelas são de vocês... E obrigado pelos comentários... ...E isso, foi apenas uma forma singela de contar o que eu aprendi com vocês. Eu que lhes sou grato... '

Um Simples Chamado

(À menina Flávia, por tudo aquilo que ela nos ensina, ali deitada em sua cama)

Quando o sorriso de uma criança se cala
Enquanto os sonhos escorrem pelo ralo,
E a dor da mãe é de um silêncio tão alto
Que grita mais que a dor do próprio parto;

Quando o viver passa a ser na lembrança
Daquilo que foi ou que poderia ter sido:
O primeiro passo, a primeiro dente caído
O dia de debutante, o dia da formatura...

E que agora foi para sempre apartado
Pelo descaso de uma triste fatalidade,
Pela imprudência de um mal terceiro
Que impunemente negligencia a vida.

Quando tudo isso ocorre dia após dia
Com José, Flávia, Pedro ou Maria...
É para que se aprenda alguma verdade,
Seja de solidariedade ou mesmo justiça:

Temos mãos que podem criar mudanças,
Coração e sentimentos capazes de unir,
E uma mente com a sabedoria necessária
Para aceitar aquilo que nos foi confiado.

Postado por Ramon de Alencar às 7:41 PM

Ramon, muito obrigada por sua sensibilidade e pela delicadeza de seu gesto.

Até o próximo post.
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