O jornal português NOTÍCIAS DA MANHÃ desta quinta-feira, traz a matéria abaixo sobre o julgamento de Flavia, ocorrido dia 03 de Março em Brasilia. O texto é de autoria de Lidia Soares do blog SILÊNCIO CULPADO
Quero deixar aqui meus sinceros agradecimentos à Lidia e ao editor Vasco Lopes.
"FLAVIA EM COMA E O PREÇO DE UMA VIDA”
“Quem não castiga o mal ordena que ele se faça.”
(Leonardo da Vinci)
Foi já há muito, muito tempo, que Flavia deixou de ser uma criança como muitas outras da sua idade. Tinha 10 anos, mas o ralo de uma piscina, no condomínio em que vivia com a sua mãe e o seu irmão, sugou-lhe os cabelos e todas as oportunidades de uma vida normal. Num coma irreversível que se vai prolongando ano após ano, Flavia viu, sem ver, passar as fases mais belas da sua vida, desde a adolescência à idade adulta, numa sequência de estações que não distingue a não ser através dos aromas subtilmente espalhados no quarto ao som de uma música que vai recordando nostalgicamente o seu paraíso perdido.
Onze anos de coma vigil não é coisa pouca e não fora a sua mãe, em presença constante, e Flavia nem se aperceberia que existem afectos dos quais não tem uma dimensão clara, mas que provavelmente confortam esse silêncio que se segue ao esquecimento da vida que fora antes.
Mas, para além da penumbra que se abateu sobre Flavia, acenando de forma irreversível a impossibilidade de viver uma vida normal, há a presença de uma mãe que acompanha e interroga, que não se resigna que a justiça possa ter tantas leituras.
Deveria ficar impune a empresa Jacuzzi, que, descurando as normas de segurança, instalou (e provavelmente continuará a instalar) ralos perigosos que sugam vidas em momentos de prazer e abandono?
Há 11 anos que Odele, mãe de Flavia, lança o seu grito pelos quatro cantos do Mundo. Há 11 anos que uma multidão virtual vai seguindo Odele e que os media se interrogam sobre o fenômeno que agita os paladinos da paz que seguem esta mulher valente, tão acompanhada e, ao mesmo tempo, tão sozinha.
Foram precisos 10 anos para que o caso de Flavia fosse reapreciado pelo Superior Tribunal de Justiça de Brasília o que veio a acontecer no passado dia 3 de Março. Numa altura em que as vozes ecoavam pelos quatro cantos do Mundo, não havia mais como fugir à sigilosa indiferença que se pretendia impor no ceifar duma vida.
Mas, apesar das rectificações feitas às premissas vergonhosas com que se pretendia silenciar a dor sem remédio de uma vida interrompida no seu curso normal, a empresa Jacuzzi continuou a ser ilibada. Com umas pinceladas mais rigorosas sobre a Companhia de Seguros AGF e o Condomínio Jardim da Juriti, fez-se uma meia justiça, que deixou em Odele um travo amargo por haver, entre os homens, poderes que apagam actos e actos que continuam a acontecer a coberto desses mesmos poderes.
O inconformismo de Odele logo se propagou entre os seus inúmeros apoiantes que lhe lembraram o Tribunal Internacional de Justiça, criado pelas Nações Unidas em 1945, e actualmente sedeado em Haia, no Palácio da Paz, e que tem por finalidade deliberar sobre disputas a ele submetidas por Estados e dar conselhos sobre assuntos legais a ele submetidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Particularmente, desconheço se este Tribunal tem condições para inverter o processo. Porém, e ainda que as não tenha, o caminhar na sua direcção é tornar mais forte este clamor universal duma Flavia que representa todos os que, no Mundo, não têm voz e se tornam presas fáceis dos gigantes empresariais, que ganham poderio indiferentes aos mais fracos, que vão pisando na procura frenética de atingir rapidamente o pedestal da riqueza e da fama.
Flavia não é apenas Flavia, mas todas as crianças que representa e que, um pouco por todo o Mundo, perdem a vida quando, despreocupadamente, nadam em piscinas de ralos assassinos.
Que da memória dos homens se não apague as vidas dos inocentes que vão sendo perdidas. Que cada pessoa sinta como sua esta dor mais forte que a dor da vida porque de um filho se trata. E que, em última instância, seja reconhecida a razão duma luta que deve prosseguir para que conservemos a nossa capacidade de nos indignarmos e com ela a dignidade humana que deve estar presente.Lídia Soares



