Este blog, criado em janeiro de 2007, é dedicado à minha filha Flavia e sua luta pela vida. Flavia vive em coma vigil desde que, em 06 de janeiro de 1998, aos 10 anos de idade, teve seus cabelos sugados pelo sistema de sucção da piscina do prédio onde morávamos em Moema - São Paulo. O objetivo deste blog é alertar para o perigo existente nos ralos de piscinas e ser um meio de luta constante e incansável por uma Lei Federal a fim de tornar mais seguras as piscinas do Brasil. A Lei Federal, finalmente foi aprovada em 2022. Flavia faleceu em março de 2026, depois de ter vivido 28 anos em coma. Vou continuar escrevendo neste blog, Em memória de Flavia.
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Dia das mães: Onde está minha filha?!

- 10 de maio de 2009
Querida filha,

Vejo você em sua cama hospitalar, mas não sei onde você está, por isso, como há um ano, estou te escrevendo uma carta neste Dia das Mães em que eu adoraria receber o teu abraço, o teu sorriso, o teu carinho, mas tenho que me contentar com tua presença imóvel e silenciosa. É como se você não estivesse aqui. E lamento muito filha, por nesses anos todos eu não ter conseguido entender o mistério do estado de coma, lamento por não entender o que ocorreu em seu cérebro, para saber exatamente onde você se escondeu, um lugar onde nunca consegui chegar pra te falar e fazer entender que esteja onde estiver, você não está só e que estou sempre por perto a lhe proteger. E filha, você gostaria muito de conhecer nossos novos amigos. Pessoas queridas de todos os lugares do Brasil e de vários países que também gostam de você e se preocupam com o que seu bem estar e com os seus direitos. Não estamos sós filha. Não estamos sós.

Mas hoje estou um pouco triste Flavia, porque queria muito ter você aqui por completo, como antes: Alegre e saudável. Há dias assim filha, em que a tristeza nos pega de jeito, porque ninguém é forte o tempo todo. Há dias em que tudo o que precisamos é um pouco de colo de mãe, e hoje mais do nunca, eu precisaria do colo de minha mãe, mas eu já te contei que sua vovó Julia partiu há quase oito anos, sempre acreditando que você recobraria a consciência. Incansavelmente, sua avó repetia que por um tempo, você estava no céu brincando com os anjos mas que a qualquer momento você voltaria, que a qualquer momento você acordaria.

Que pena filha, a vovó Julia se enganou, você não voltou e desse longo sono, você não acordou. Mas filha, mesmo que o sonho de sua avó não tenha se realizado, sua mãe ainda está ao seu lado Flavia e vou continuar fazendo de tudo e mais um pouco para que você, enquanto estiver aqui, tenha a melhor qualidade de vida possível, porque isto não é favor filha, é um direito seu. Vou continuar a cuidar de você com o mesmo carinho de sempre, vou continuar a lhe defender, a lutar por você. Vou continuar exigindo que seus direitos sejam respeitados, não apenas em parte como aconteceu depois de muitos anos de luta judicial, mas que seus direitos sejam totalmente respeitados. É o mínimo que lhe deve quem por negligência e descuido, foi co-responsável nesse acidente que destruiu seu futuro e lhe deixou nesse inatingível e misterioso estado de coma. Por isso vou continuar Flavia, vou continuar, vou continuar....

Fique em paz filha.

"Palavras que aquecem"

- 2 de abril de 2009
O texto a seguir é de autoria da cronista acreana Leila Jalul, amiga que fiz por aqui mas parece que a conheço desde que nasci.

"PALAVRAS QUE AQUECEM

Leila Jalul

Desde a vez primeira que acessei o blog FLAVIA VIVENDO EM COMA, no início do ano passado, um pouco antes, talvez, senti que Odele Souza é uma pessoa especial. Apesar de toda a tragédia que abalou sua vida, mudando-a em todos os sentidos e direções, Odele não deixou que o marasmo e o conformismo tomassem conta dela.


Confesso, uma, duas, três vezes e até mais que, fosse por mim, com a fragilidade que me acompanha, já teria desistido da luta. No primeiro ano, não. No segundo, talvez não. Do terceiro em diante, não sei dizer. Sou daquele tipo de gente otimista, briguenta e cheia de denodo. Por pouco tempo, claro! Isso não é uma afirmação definitiva e peremptória. O sofrimento modifica e, se em lugar de Odele, acho também não entregaria o jogo no primeiro tempo.

Hoje, lendo o blog com uma constância diária, vendo o que vejo, lendo o que leio, talvez mudasse meu nome e minha interpretação sobre lutas e lutadores. Reavaliaria meus conceitos sobre amigos, sobre amizades e sobre o sentido implícito e explícito das palavras. Destas últimas – as palavras, sempre as palavras -, faria um doutoramento sobre a física térmica, calorimétrica e aconchegante que irradiam.
Isso dá nó na minha cabeça, mas, por outro lado, desata nós da minha sensibilidade. As palavras aquecem e dão eias, empurrões e apoios logísticos. As palavras são verdadeiros anteparos, elmos e armaduras contra o desânimo.

Peciscas, Isabel Filipe, Fatyly, Adesenhar, Lídia Soares, Nuno de Sousa e toda a gente da pátria mãe – Portugal, e outros e mais outros e muitos mais outros de muitos países de línguas distintas, inclusive do Brasil, mandam calor, carinho e admiração pela luta de Odele, até que se esgotem as instâncias, até que feneçam todas as tentativas. Isso é fantástico!

Odele sabe que Flávia, salvo um milagre (milagres são sinônimos de impossibilidades), jamais voltará a ser a bela criança fagueira e toda prosa, com o crescimento normal e bem posicionada no tempo e no espaço. O tempo não pára. Em tradução bem trágica, mesmo que haja o milagre, Flávia jamais saberá sobre o primeiro sutiã, a primeira menstruação, a paquera da hora e do amor da hora incerta. Flávia jamais saberá o que é rebeldia contra pai, contra mãe e contra irmãos ciumentos.

Odele luta. Já não luta por Flávia, apenas e tão somente. Aumentaram, dilataram, a partir de sua luta individual os seus desejos por justiça e pela implementação dos direitos básicos. Odele tem compreensão de que não é a única sofredora do universo, o que costuma acontecer com pessoas de baixo calibre de inteligência. As palavras que a aquecem, os amigos que formou na nas fileiras dos guerreiros pelos direitos humanos de alas universais, não a deixaram egoísta e paralisada. Odele integra a grande coluna muitas vezes pouco ouvida e compreendida.

Minha admiração por você, Odele, é que você absorveu o calor de todas as palavras que aquecem. Vá. Siga em frente até onde lhe permita o limite do direito de lutar.
O calor das palavras aquecem e impulsionam.
Vá, por Flávia e pelos que clamam por justiça. Vá!

Leila, MUITO OBRIGADA por suas palavras tão bonitas. Especial é você que apóia a causa de Flavia, mas tem consciência de que muitas outras Flavias existem por aí emudecidas e esquecidas. Especiais são todas as pessoas que por aqui passam e que se manifestam através dos comentários que deixam, pois suas palavras realmente me aquecem. Especiais são aqueles que mesmo em silêncio visitam o blog de Flavia e torcem por justiça para ela e para todos que de justiça precisam.
O meu carinho pra vocês e até o próximo post.

AGRADECIMENTOS DE LEILA PELOS COMENTÁRIOS DEIXADOS SOBRE ESTE TEXTO, "PALAVRAS QUE AQUECEM", DE SUA AUTORIA:
"Aos amigos quero expressar agradecimentos pelos comentários sobre as palavras que dirigi à amiga Odele. Qualquer coisa que diga para esta brava mulher será sempre pouco.
É dito e sabido que o peso do sofrimento não ultrapassa a capacidade de suporte dos ombros. Mesmo assim tenho absoluta certeza que Odele se alimenta das palavras de seus amigos. Ela é serena. Expressa suas insatisfações sem marcas de ódio e tem doçura na voz. Alguns de nós já vimos Odele participando em programas de televisão. Nos dois que vi, observando seu semblante, nitidamente percebi que o equilíbrio é sua marca maior.

Não fiz favor ao nominar os amigos portugueses. Não deixei de exaltar os demais. São muitos brasileiros e alguns outros de países vizinhos. Uns tantos mais presentes, uns mais rareados. Todos importantes. Todos emanando calor nas palavras de apoio que aquecem Odele diretamente e à querida Flavinha, por intermédio dela. É no quarto de Flávia onde está o computador para, entre um cuidado e outro, entre um afeto e outro, Odele sentar-se e transmitir aos quatro cantos do mundo a longa batalha judicial que vem travando e que ainda não se esgotou. É dali, daquele cantinho, de onde partem belos textos de apoio a quem de justiça precisa. O blog é quase um serviço de utilidade pública e um veículo de propagação do amor.
Um grande abraço aos amigos de Odele (meus também, pois os admiro a todos). Um enorme afeto para minhas queridas Odele e Flávia."

Vou até onde preciso for

- 29 de março de 2009
As pessoas me perguntam se depois da recente sentença do processo de Flavia lá em Brasilia, onde a empresa Jacuzzi do Brasil não foi co-responsabilizada pelo acidente causado à Flavia, e por todos esses anos de luta, desgaste fisico e emocional, se eu iria me retirar de cena, encerrar este blog, decansar enfim.

Como posso descansar se o objetivo pelo qual eu lutei por mais de 10 anos não foi totalmente alcançado, porque a justiça não se fez por completo? Como posso parar se tantos outros acidentes causados por ralos de piscinas continuam a acontecer e a matar pessoas, principalmente crianças? Além disso, desde que vocês visitam este blog, acompanham a história de Flavia e deixam aqui seus comentários, eu não me sinto mais só nesta luta por respeito e justiça para Flavia e por ver punidas as negligências que tantas vítimas têm feito, esta luta, já se tornou de todos nós.

A seguir, o comentário que me foi enviado por e-mail, com publicação devidamente autorizada.
Ana, de Moema:
"..Quando li hoje que tinha saído o resultado do julgamento, pensei imediatamente, finalmente fizeram justiça!
Depois abrindo o arquivo, li a sentença e fiquei super decepcionada. São essas coisas que nos abatem e nos fazem pessimistas, aí me pergunto: esse país, esse mundo não tem mais solução?? Não tem mais justiça?

Apesar disso, concordo com outros coments de que vc fez a sua parte e deu um grande passo em favor de tanta gente que não tem como gritar a sua dor, vc está lutando para alertar as pessoas que nem no seu pior pesadelo tem idéia do que é passar por tudo isso e ainda ter forças para lutar pela sua filha e que qualquer um de nós pode estar na sua situação a qualquer momento.
Cadê a justiça?? Constato com tristeza e mais uma vez que a dor sempre é só nossa.
Espero que esse resultado não te faça recuar, vc já é uma vitoriosa, batalhadora, te admiro muito e conte comigo. (Ana - 27.03.2009)

Este outro comentário foi deixado por:
Cadinho RoCo disse... (No post: Se Flavia não desiste, eu também não 17/3/2009)Vivemos num Brasil deparado por situações tão escandalosas quanto impunes. Convivemos com mudanças de valores delicadas e por demais perigosas. A Flávia é a representação viva de uma situação a exigir mais que um processo jurídico. A Flávia é mártir a impor vergonha até mesmo aos que insistem em dar de ombros ao que fazem, por trazerem em suas atitudes a falta de respeito para com o ser humano, para com o próximo. A Flávia é poder de resistência e força a dignificar o que alguns seres em suas instâncias insistem em ignorar. A Flávia é esperança de vida a dar sustento ao amor e não à hipocrisia de quem perde tanto por só querer ganhar tanto. Cadinho RoCo
Terça-feira, Março 17, 2009

Ana e Cadinho RoCo: MUITO OBRIGADA.

Até o próximo post.
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