O blog Desabafo de Mãe (*) publicou no dia 12 de Janeiro recente, uma entrevista comigo, feita por e-mail. Para quem não teve oportunidade de ler, transcrevo aqui essa entrevista quase na íntegra, por que acho que minhas respostas poderão esclarecer dúvidas de muitas pessoas com relação ao perigo dos ralos de piscinas.”
“Entrevista - Um blog que denuncia em busca de Justiça
É com muita honra que publico nossa primeira entrevista por aqui. E quem é responsável por essa seção é nosso repórter paranaense de Guarapuava, Samilo Takara, que não é pai, mas adora conhecer gente e tem prazer enorme em falar sobre a sociedade. Nossa primeira entrevistada é a Odele Souza, do blog Flávia vivendo em coma , que resolveu explorar a internet para alertar aos pais sobre os perigos dos ralos da piscina, que foram responsáveis pelo estado de coma da sua filha Flávia.
Ela conta que leu uma reportagem sobre o poder de comunicação dos blogs e acreditou que o meio poderia ajudá-la a divulgar o caso pela imprensa. Isso até aconteceu, mas não houve interesse necessário para dar continuidade ao tema conforme acredita Odele. Talvez, porque a imprensa ainda não percebeu que há muitas mães na internet denunciando as injustiças e mazelas do nosso País. Motivo? O poder dos blogs está na sua rede de interlocutores. Se nós (mães e pais) deixamos de citar outra mãe, ou não temos interesse em conhecê-las, ficamos perdidas no mar de informações da blogosfera e, assim, deixamos de ser uma rede de mais de 370 blogs com interesses comuns. É responsabilidade nossa citar essas mulheres( e homens), classificá-las nas tags, colocá-las na lista de blogs, ler seus blogs e trocar nossas experiências. Só assim seremos, enfim, uma blogosfera de mães.
Quem não conhece a história da Odele, que relata o acidente da Flávia com objetivo de "protestar contra a lentidão da justiça brasileira e alertar para o perigo dos ralos de piscinas", se surpreenderá com a força dessa mulher. A filha dela tinha apenas 10 anos quando seus cabelos foram sugados pelos ralos da piscina do condomínio, onde a família morava no bairro Moema, em São Paulo. Foi retirada da piscina e levada para a UTI do Hospital Santa Isabel, em coma. E assim permanece já há dez anos. "Flavia segue inconsciente, em coma vigil. Abre os olhos durante o dia e os fecha à noite. Mas não interage com o meio ambiente e é completamente dependente para toda e qualquer atividade da vida. Ao longo dos anos, devido ao tempo em que fica imóvel vem adquirindo deformidades severas que torna o quadro ainda mais doloroso e difícil de cuidar", conta Odele.
Veja algumas respostas da Odele neste bate-papo via email:
1- Quais são os pontos que os pais devem estar atentos antes de deixar o filho mergulhar na piscina?
Odele Souza: Na verdade, não acho que os pais é que tenham que ficar constantemente em estado de atenção. As crianças assim como os adultos vão a uma piscina para se divertir, para se distrair e não teriam que ficar tensos e preocupados com o perigo de um ralo mal instalado na piscina e fora dos padrões de segurança. Essa preocupação deveria ser primeiro do fabricante do ralo da piscina que deveria ter tido a responsabilidade de vender o equipamento ali instalado dentro das dimensões e potência corretos ao tamanho daquela piscina. Segundo, o administrador da piscina, também tem por obrigação vistoriar se o equipamento de sucção está instalado e funcionando corretamente. Infelizmente, pelo número de acidentes que venho documentando no blog de Flavia com ralos de piscinas funcionando de forma irregular, percebe-se que nem o fabricante nem o administrador da piscina vêm tendo esse cuidado. Portanto, eu diria aos pais que não tirem os olhos de seus filhos enquanto eles estiverem dentro de uma piscina.
2-Neste período, muitas famílias estão saindo de férias, indo para piscinas e para clubes. Você tem alguma recomendação?
Odele Souza: Eu gostaria muito que o acidente ocorrido com Flavia fosse capa de uma revista de grande circulação, neste mês de Janeiro, em que completa 10 anos que um ralo de piscina lhe sugou os cabelos e lhe deixou em coma irreversível. Seria um alerta para as pessoas que neste mês de Janeiro, por ser um mês de muito calor no Brasil, freqüentam mais as piscinas.
3-Você tem algo que gostaria de dizer a Justiça, ou as mães deste país, sobre o acidente de Flávia?
Odele Souza: À Justiça, eu diria que justiça lenta é uma justiça injusta. Justiça lenta beneficia os culpados e pune as vítimas. Enquanto isto ocorrer, a negligência beneficiada pela impunidade vai continuar a causar vítimas de acidentes com ralos de piscinas. Às mães eu diria que se tiverem a infelicidade de passar pelo que eu venho passando, por favor, não se calem. Protestem, denunciem, GRITEM. Um dia alguém poderá nos ouvir.
4-Qual foi a sentença final do julgamento? Quanto tempo dura essa ação
Odele Souza: O processo de Flavia está na Justiça paulista há NOVE ANOS. Nesse período aconteceram dois julgamentos. O primeiro cinco anos após iniciado o processo, e foi concedido à Flavia R$ 52 mil reais de indenização. No segundo, mais dois anos após, concederam mais 52 mil. Ou seja, 104 mil reais de indenização para eu cuidar de Flavia pelo resto de sua vida. Recorri das duas sentenças e agora, o processo de Flavia deve seguir para Brasília onde será julgado em última instância.
5-Como o blog ajudou você e a Flávia?
Odele Souza: A melhor ajuda que o blog de Flavia poderia trazer seria o interesse da mídia convencional em divulgar este tipo de acidente, exatamente para alertar as pessoas do perigo de ralos de piscinas mal instalados. Infelizmente até agora isto não aconteceu. Mesmo assim o blog me ajuda, pois me faz bem saber que o caso de minha filha pode alertar outras pessoas para o perigo dos ralos de piscinas e com isto evitar novos acidentes com esses ralos sugadores. O maior acesso ao blog de Flavia aconteceu em 17 de Dezembro de 2007, quando através de uma Blogagem Coletiva, participaram em média 200 blogs e o número de acesso diário chegou a 300. Depois disso a média de acesso, gira em torno de 150 a 200/dia, incluindo blogs do Brasil e do exterior.
6-Você já encontrou casos parecidos com o de Flávia? O blog ajudou esse contato e troca de experiências?
Odele Souza: Sim, venho encontrando muitos casos parecidos com o de Flavia, no Brasil e no mundo, e procuro mostrá-los no blog dela. Já a troca de experiência é difícil porque normalmente as pessoas se fecham e não querem muito contato.
7-Como a imprensa abordou o caso?
Odele Souza: Esta é uma lacuna, uma falha da mídia convencional que normalmente só mostra interesse por uma notícia, no momento em que ela ocorre. Foi assim com Flavia. No momento do acidente, há 10 anos, o prédio onde morávamos em Moema era cercado por jornalistas querendo noticiar o acidente. Saíram reportagens no jornal "O Estado de São Paulo", "Folha de São Paulo" e mais tarde "Jornal da Tarde". A TV Bandeirantes também fez uma reportagem na época. Depois disso, foram atrás de notícias mais recentes. Mais recentemente, em março de 2007, a TV Record fez uma reportagem usando o caso de Flavia para falar da lentidão da Justiça Brasileira e do perigo dos ralos de piscinas. Foi só. Minha opinião é que a mídia teria o dever de fazer um 'follow up' das situações que noticiam, para mostrar à sociedade o que aconteceu em cada situação por ela noticiada. Seria uma prestação de serviço da mídia à sociedade. “
Postado por Ceila Santos às 03:07
Colhi alguns comentários deixados lá no Desabafo de Mãe.
Eliana disse...
Me solidarizo com a Odele nessa sua difícil e penosa caminhada. A Flávia não pode estar passando por isso em vão. Pena que a morosidade da nossa "justiça" imponha regras tão duras para quem já vem sofrendo há tanto tempo. Infelizmente e, como quase tudo nesse país, a negligência é a forma mais prática de apaziguar a consciência rasa dos nossos políticos. Samilo, continue interessado e investigativo. Parabéns pela iniciativa. Eliana - Mogi Guaçu –SP (**)
Fernanda disse...
Através do caso da Flávia eu comecei a ficar de olhos mais abertos e alertar outras mãe para que exijam a manutenção seja no condominio, na escola e ou no clube.Na escola da minha filha exigi isso a coordenadora só deu aquele "tudo bem" que a gente sabe que foi só pra não dizer: "até parece que vou cuidar dessa bobagem"No dia seguinte levei o endereço do blog da Flávia e disse a ela que lesse e que não deixasse isso acontecer novamente com outras crianças. Quando ela leu, me ligou e pediu desculpas por ter ignorado algo que ela nem sabia do que se tratava e da importancia que tem.
(* ) No Blog Desabafo de Mãe, Ceila Santos, Samantha Shiraishi, Manoel Gonçalves, Sueli Sueishi e Lucia Freitas, exploram bastante o universo mães/pais/filhos. É um blog que vale a pena visitar.
(**) Eliana – Mogi Guaçu – SP. Espero que você leia este post. Você tem sido uma leitora assídua do blog de Flavia, tem deixado sempre comentários e leio comentários seus sobre Flavia, em outros blogs. Você tem sido uma presença querida nos meus posts. Nunca pude lhe agradecer pois além de você não ter blog, desconheço seu e-mail. Por favor, me contate. Um beijo.



