Flor feita para Flavia, por Alice Matos, do blog Pensamentos (Portugal)Algumas pessoas me escrevem dando sugestões de como agir com Flavia para que ela saia do estado de coma em que entrou há mais de 11 anos. Ah! se soubessem como tenho tentado esse retorno de minha filha. Ah! se soubessem o quanto lamento que amor de mãe não tenha tanto poder quanto eu pensava ter.
Leio tudo que posso sobre o estado de coma, sobre pessoas que estão em coma e sobre aquelas que felizmente recobraram a consciência. Não são muitas. O recobrar da consciência de uma pessoa que entrou em coma é algo complexo e infelizmente não depende apenas dos cuidados que mantemos com a pessoa, nem dos estímulos que lhes proporcionamos, embora esses estímulos sejam benéficos e os cuidados, obviamente, obrigatórios. Mas esse retorno do coma é algo misterioso, e infelizmente não acontece com frequência, com quem já está assim há muitos anos.
No último dia 31 de Maio saiu uma matéria no jornal Folha de São Paulo, sobre uma moça que sofreu um acidente de carro e que segundo a matéria, devido aos estímulos feitos por sua mãe ela retornou do coma. Acredito que algo além dos estímulos da mãe tenha colaborado para que essa moça saísse de seu estado de coma.
Sobre o estado de coma aprendi que nenhuma lesão cerebral é igual a outra o que faz com que cada pessoa tenha seqüelas diferentes e consequentemente sua eventual recuperação também. No caso de Flavia, faço massagens diariamente em seu corpo, braços, mãos e pés. Coloco músicas para ela ouvir, às vezes no pequeno aparelho de som de seu quarto, ou gravo músicas especialmente para ela e coloco em seu Ipod, bem baixinho em seu ouvido. Este procedimento de colocar música ou mensagens gravadas deve ser feito com critério para não cansar a pessoa. Há momentos que ela precisa ficar quietinha mesmo. O bom senso deve sempre prevalecer.
Além disso, em sua cadeira de rodas especial, levo Flavia para passear na área de lazer do prédio onde hoje moramos e onde encontramos alguns vizinhos e crianças que por vezes se aproximam. Por exemplo, Laura de 6 anos, é uma menina adorável, que tem sempre uma palavra de carinho para Flavia. E tem também a Mariana de 7 anos, que ao passar sempre diz "Oi Flavia!"
Há relatos de pessoas que estiveram em coma e ao recobrarem a consciência, disseram ter ouvido e entendido tudo que falavam à sua volta. E o filme FALE COM ELA de Almodóvar mostra uma mocinha que retornou do coma porque seu enfermeiro conversava muito com ela.
Eu também converso muito com Flavia, canto para ela, leio livros e mensagens que nos enviam. Falo de nossos novos amigos virtuais, conto histórias de sua infância, mencionando o nome de suas amiguinhas, e pessoas que ela amava. Nos primeiros anos, após o acidente que a deixou em coma, eu tinha uma esperança quase insana de que ao ouvir um desses nomes queridos, Flavia acordasse. Hoje, continuo lhe proporcionando estímulos de toques e auditivos, mas com o objetivo de tirar Flavia do silêncio e da solidão desse longo e misterioso estado de coma em que minha filha entrou, mistério esse que nem o meu amor de mãe conseguiu até hoje desvendar.
Até o próximo post.



