domingo, 22 de agosto de 2010

A historinha de uma centopéia.

Quando Flavia estava com sete anos, um dia chegou da escola dizendo que havia lido uma história e que precisava me contar. A história dizia que quando uma pessoa vem à nossa casa pela primeira vez, deve sair com um presentinho, um mimo, uma lembrança. Não precisaria ser algo caro, Flavia me dizia, bastaria que representasse a alegria de termos recebido a pessoa em nossa casa.

E nos dias seguintes, Flavia me relembrava a história e pediu que escolhêssemos algo para darmos às pessoas que fossem nos visitar pela primeira vez. Insistente como toda criança, Flavia me dizia com sua graciosa voz de sino: “Mamy, vamos comprar logo as lembrancinha para nossas visitas.” E num domingo eu e Flavia fomos à Feira de Artesanato de Moema, que ficava a dois quarteirões de nossa casa e ela escolheu a centopéia da foto que ilustra este post. É um imã de geladeira feito de biscuit.

E assim foi. Compramos algumas centopéias, e já deixávamos embaladinhas num saquinho de celofane. Quando a visita saía, Flavia, toda alegre, fazia questão de lhe entregar a lembrancinha. Mantive este costume de minha filha e mesmo após o acidente que lhe deixou em coma, continuo comprando as centopéias de Flavia na mesma artesã, a simpática Sandra, que aos domingos expõe seus trabalhos na Feira de Artesanato de Moema. Por vezes, a minha reserva de centopéias acaba e pode acontecer de alguma pessoa vir nos visitar pela primeira vez e eu não estar com a “lembrancinha de Flavia”, mas tento evitar deixar acabar o “estoque”.

Hoje, estiveram aqui em casa, Paola, Bruna, Flávia e Mariana, formandas de jornalismos da Faculdade Casper Líbero, que estão fazendo trabalho de conclusão do curso, o TCC, com o título “Debaixo de Seus Olhos” sobre pessoas em coma. Eu e Flavia estamos participando do trabalho de conclusão do curso das meninas, todas muito graciosas e com idade regulando com a de Flavia, 20, 22 anos. E elas saíram daqui com a centopéia de Flavia para enfeitar as geladeiras de suas casas.

E ainda hoje quando alguém vem à nossa casa pela primeira vez, ao lhe entregar este presentinho tão simples, faço-o em nome de Flavia e conto a historinha que um dia encantou minha menina. Tomara que para aonde quer que este enigmático estado de coma a tenho levado, que Flavia continue em seu mundo encantado.

 

domingo, 8 de agosto de 2010

Cerejeiras em flor. Para nossos filhos ausentes.

Cerejeiras em flor, Parque do Carmo - São Paulo. Foto de meu filho, Fernando Belo.

A cerejeira nos dá uma flor bela e delicada.. A cerejeira floresce com exuberância, mas sua flor dura pouco tempo. Enquanto está aberta, enquanto vive, mesmo por pouco tempo, esta flor enfeita o mundo. Algumas pessoas são como as flores da cerejeira; ficam pouco tempo entre nós, mas partem deixando um rastro de beleza e perfume.

Estas flores de cerejeira, eu ofereço,
À minha filha Flavia, que sem gestos e sem voz, - em coma - mas com uma presença forte, resiste e assiste a meu lado a vida passar.

À Daniella Perez, linda e talentosa, brutalmente assassinada aos 22 anos. (filha da novelista Glória Perez) À Rafael Mascarenhas, tão menino ainda, com um futuro tão promissor, irresponsavelmente atropelado aos 18 anos. (filho da atriz Cissa Guimarães) À Isabella Nardoni, João Hélio, Eloá Pimentel, e a todas as crianças e jovens que morreram vítimas de violência.

À Thiago Naydel, 11 anos, Rafael Delfino,9 anos, Gabriel Posteraro, 9 anos, Jacqueline Resende, 13 anos, estas são algumas das crianças brasileiras que morreram porque, devido à forte e inadequada sucção, ficaram presas aos ralos das piscinas onde nadavam. São para vocês estas flores. Cerejeiras em flor. São vocês estas flores.

E que possamos ter, um mundo mais bonito, mais justo. E que nenhuma mãe, além da dor de ver seu filho morto ou em coma, ainda tenha que conviver com a indignação de ver os algozes de seus filhos, na IMPUNIDADE.
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